

Troféu Pantanal
VINCENT CARELLI

O cineasta que fez do cinema uma ferramenta de luta.
Vincent Carelli não chegou às aldeias para filmar “sobre” os povos indígenas. Chegou para filmar “com” eles. E isso mudou tudo.
Cineasta por urgência, Carelli fundou, em 1986, o projeto Vídeo nas Aldeias (VNA). Entregou as primeiras câmeras VHS nas mãos dos Waiãpi, no Amapá. Não era doação. Era ruptura.
Pela primeira vez, indígenas assumiam o controle da própria imagem e deixavam de ser apenas objeto do olhar do outro. Nascia ali o primeiro cinema indígena das Américas.
São 40 anos, 100 filmes e 15 povos formados como realizadores. Vídeo nas Aldeias é uma escola, um arquivo vivo, uma trincheira política.
Carelli dirigiu e produziu obras fundamentais: “Corumbiara” (2009), sobre o massacre e o isolamento de indígenas no Acre; “Martírio” (2016), codirigido com Ariel Ortega e Ernesto de Carvalho, sobre o genocídio Guarani-Kaiowá; “Antônio e Piti” (2019), em parceria com Wewito Pianko, cineasta indígena formado pelo projeto VNA.
Mas seu maior filme talvez não tenha nome. É a geração de cineastas indígenas que ele formou: Divino Tserewahú, Patrícia Ferreira, Takumã Kuikuro, Sueli Maxakali, Wewito Pianko. Nomes que hoje dirigem suas próprias câmeras e contam suas histórias.
A poética de Carelli é a da escuta. Escuta para devolver a palavra e a imagem aos povos originários. Seu trabalho atravessa o cinema, a antropologia e a luta por direitos.
A câmera que ele entregou virou o arco e a flecha modernos, identidade, ativismo, descoberta e revelação. Ele não filmou os povos indígenas; ele os devolveu a si mesmos.
O Bonito CineSur 2026 reverencia quem devolveu a palavra e a imagem a quem ela pertence e vive.
LUIS PUENZO

Cinema, estética e memória.
Argentino, roteirista e diretor, Luis Puenzo realizou em 1985 “A História Oficial”, primeiro filme latino-americano a ganhar o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro.
Primeiro filme a colocar a ditadura argentina no centro do debate mundial. O país gritava, queria saber dos seus desaparecidos pela ditadura. E queria justiça!
Puenzo entendeu que cinema é testemunho. Em “A História Oficial”, uma professora descobre que sua filha adotiva pode ser filha de desaparecidos. Além do Oscar, o filme recebeu mais de 100 prêmios em todo o mundo.
Depois, vieram “Gringo Velho” (1989), “A Peste” (1992), “A Prostituta e a Baleia” (2004) e muitos outros como produtor. Obras que atravessam o tempo.
Puenzo colocou a América Latina no mapa do Oscar. E abriu a porta para Campanella, Szifron, Lelio e Valter Salles.
A poética de Puenzo é a do confronto ético. Ele filmou a dor, a culpa e a responsabilidade de uma nação inteira. Para que as gerações futuras entendessem e não esquecessem.
Por isso, o Bonito CineSur 2026 reverencia o roteirista e diretor, que nos deixou em 21 de abril deste ano, aos 80 anos de idade.
